Tabelamento do frete eleva custos, trava contratos e pode pressionar obras e investimentos, aponta Fiemt
tabela do frete pode prejudicar obras públicas
O tabelamento do piso mínimo do frete voltou ao centro do debate no setor produtivo e foi alvo de críticas durante reunião do Conselho Temático de Infraestrutura e Logística da Federação das Indústrias de Mato Grosso (Coinfra). O encontro reuniu representantes da indústria, especialistas e entidades nacionais.
A avaliação é de que a medida tem provocado aumento expressivo nos custos logísticos, insegurança jurídica e efeitos diretos sobre contratos, investimentos e obras públicas. O presidente do Sistema Fiemt, Silvio Rangel, destacou que o tema ganhou relevância por impactar diretamente o custo da produção industrial.
“Esse é um tema importante e sensível para a economia como um todo. As pessoas não têm a ideia do impacto que isso tem, mas, no final das contas, vai para o bolso da sociedade. Às vezes, as pessoas fazem uma lei e não têm a dimensão do alcance que isso tem”, afirmou.
O presidente do Coinfra e diretor da Fiemt, Alexandre Schutze, ressaltou que a predominância do transporte rodoviário no Brasil agrava os efeitos da medida.
Segundo ele, o setor enfrenta um cenário de insegurança, especialmente devido ao modelo de fiscalização. As autuações são automáticas, com multas de cerca de R$ 10,5 mil por operação em caso de descumprimento do piso, podendo chegar a até R$ 10 milhões em caso de reincidência.
Fiemt mostrou impactos do tabelamento do frete
O presidente do Conselho Temático defendeu diálogo para resolver o imbróglio. “Nós temos que escutar todos os lados. Nós aqui representamos a indústria, mas tem o motorista, tem a transportadora. A gente vai ter que ter esse diálogo para construir uma proposta que traga solução para essa questão”, disse.
O impacto da política também atinge diretamente o poder público. De acordo com o vice-presidente da Fiemt, Gustavo de Oliveira, o transporte representa cerca de 40% do custo de obras de infraestrutura. “Se houver um reajuste de 6% ou 7% sobre isso, o impacto para o erário é muito grande”, afirmou.
O superintendente de Infraestrutura da CNI, Wagner Cardoso, reforçou as críticas à metodologia da tabela, destacando a dificuldade de padronização em um país com grande diversidade logística. “Essa tabela de frete nunca vai funcionar porque são mais de 8 mil tipos diferentes de cargas”, pontuou.
A gerente de Desenvolvimento Industrial da Fiemt, Vanessa Gasch, contextualizou que o piso mínimo do frete foi instituído em 2018, após a greve dos caminhoneiros, com o objetivo de garantir remuneração mínima aos transportadores, especialmente autônomos.
Segundo ela, a metodologia é baseada no Coeficiente de Custo de Deslocamento (CCD) e do Coeficiente de Carga e Descarga (CC), com valores definidos por tipo de carga, número de eixos e distância percorrida. Porém, precisa ser discutida e revisada.
debateu os efeitos do tabelamento do frete
Além disso, foi criado um mecanismo de reajuste automático sempre que a variação do preço do diesel varia 5%, o que tem provocado atualizações frequentes da tabela, sobretudo com o contexto de conflito internacional.
Vanessa destacou que, no final de 2025, houve discussão para endurecimento das regras de fiscalização, que resultou na publicação da Medida Provisória 1.343/2026 do Governo Federal e resoluções 6.078 e 6.077 da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), publicadas em março de 2026. Com a nova sistemática, o registro prévio das operações por meio do Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT) passou a ser obrigatório, e o sistema pode bloquear automaticamente fretes abaixo do piso mínimo ainda na origem, além de gerar multas automaticamente.
De acordo com levantamento do Observatório de Mato Grosso, do Sistema Fiemt, o valor do frete acumulou aumento de cerca de 80% entre o 2020 e janeiro de 2026. Apenas na atualização mais recente, em março deste ano, houve reajuste adicional entre aproximadamente 5% e 6% nos custos de deslocamento quando comparada a janeiro.
“A gente já vinha de um reajuste significativo em janeiro de 2026, e tivemos mais esse aumento recente, publicado em março. Isso impacta diretamente os custos da indústria e acaba sendo repassado, gerando mais pressão inflacionária sobre os produtos, que já acelerou recentemente em razão de fatores externos”, afirmou.
O estudo também aponta que todos os setores industriais analisados registraram aumento no piso mínimo, em função dos reajustes recentes.